Convite à Publicação

n.º 1  (2017)

(Trans)Localidade e Culturas Urbanas

Data limite para submissão de propostas de textos –  15 de julho de 2017

Novo prazo para submissão de propostas de textos – 15 de outubro de 2017

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“Translocality draws attention to multiplying forms of mobility without losing sight of the importance of localities in peoples’ lives”
Oakes and Schein, Translocal China, Linkages, Identities and the Reimagining  of Space
“A passagem da “cidade para o urbano” arrastou uma metamorfose profunda da cidade: […] que passou a centrífuga;[…] a uma geografia desconfinada […]difusa e fragmentada;  […] passou a ser um transgénico que assimila e reprocessa elementos[…], passou a sistema de vários centros; de ponto num mapa, passou a mancha”
 Álvaro Domingues, “A Rua da Estrada”

Refletir, hoje, quer sobre o que é o translocal e a translocalidade, quer sobre o que é a cidade e o urbano (e respetivas culturas), implica colocar estes conceitos, fenómenos e experiências em correlação com outros que lhes são alternativos ou complementares: por um lado, local/localidade/localismo, região/regionalidade/regionalismo, nação/nacionalidade/nacionalismo, globalização e cosmopolitismo; e por outro lado, campo/rural/ruralidade.

O caráter catastrófico, fragmentário e palimpséstico que Walter Benjamin (2003) identificou na experiência da temporalidade moderna, a liquidez que Zygmunt Bauman (2012) diagnosticou na modernidade tardia, ou a reflexividade crítica que Ulrich Beck (1994) também apontou no contemporâneo, no final do século XX, deixavam de se compaginar com conceções exclusivamente lineares e progressistas de tempo, com perspetivas deterministas e meramente materiais do espaço (Lefebvre, 1991; Massey, 2005; Harvey, 2009), ou até com paradigmas estanques e estáticos de fenómenos como a fronteira ou a comunidade (Agamben, 1993; Nancy, 2000).

A cidade e o urbano,  pensados e experienciados como lugares-tempos expandidos e instáveis, apresentavam-se como uma tessitura física, social, política e cultural fragmentária, mas densa, contaminada e em turbulenta metamorfose (Crang, 2000). Surgiam como unidades orgânicas, tensionais e não-homogéneas, onde o limiar com o rural e com o estrangeiro se dissolvia e onde diversas temporalidades se cruzavam, numa trama que era permeável ao estranho, à diferença e ao novo, mas que, simultaneamente, também se definia como corpo autofágico que se vai nutrindo das ruínas do passado, para, de forma complexa e por vezes caótica, se reinventar quotidianamente (Domingues, 2010).  Cidade e urbano configuravam-se então (como hoje) como palimpsestos e arquipélagos transfronteiriços, marcados por dinâmicas que ultrapassavam o local; como sistemas rizomáticos, cuja fluidez encontrava pontos de ancoragem e cristalização que se estendiam para além das clássicas muralhas físicas da cidade e para além das normas que aí foram sendo dominantes.

A par com esse entendimento do que era/é a cidade e o urbano, também translocalidade e translocal surgiam, nesse mesmo período, como renovação conceptual desses outros termos que lhes são tangenciais. Sujeitos à usura do tempo e à alteração fenomenológica, histórica e contextual, local/localidade/localismo, enquanto conceitos operativos, tornavam-se limitadores quer na reflexão sobre os sistemas ecossocioculturais modernos, quer na construção de respostas para as interrogações e para os desafios que a contemporaneidade colocava. Por um lado,  a vaga crescente dos processos de mobilidade humana e cultural era intensificada com o desenvolvimento tecnológico, com o aparecimento de novos media e (com estes) de renovadas modalidades de comunicação e de relação interpessoal, intercultural e económica, agora também marcadas pelo virtual, pela simultaneidade transfronteiriça e por experiências mais complexas de espaço/tempo (Beck, 2007; Greenblatt, 2010). Por outro lado, o paradigma oitocentista do Estado-Nação (tantas vezes reproduzido, a uma escala menor, no paradigma da Região) esgotava-se (Sousa Santos, 1999), exigindo a reequação dos processos de identificação política e geocultural, das narrativas identitárias e das relações de pertença comunitária (Agamben, 1993; Nancy, 2000). Simultaneamente, a tendência hegemónica da globalização, a vertigem do desenraizamento cosmopolita e esses novos entendimentos de espaço/tempo potenciavam uma profunda desestabilização e pulverização das narrativas identitárias.

Deste modo, translocal e translocalidade questionavam e desconstruiam a dicotomização radical e acrítica que, não raras vezes, se estabelecia quer entre o que era local e nacional, quer entre o que era local e global ou cosmopolita (Greiner e Sakdapolrak, 2013). Passavam a reportar-se a fenómenos e experiências culturais, sociais, políticos, históricos, económicos, artísticos ou até biológicos, geofísicos, psicológicos e afetivos implicados em dinâmicas, mais ou menos transgressivas, de trânsito, de flutuação, de transferência e de metamorfose, fosse de sujeitos, valores, substâncias e imaginários, fosse de bens e produtos. Contudo, esses fenómenos e experiências nem por isso decorriam de uma desterritorialização absoluta, ou de um radical desenraizamento temporal que os projetassem para fora de um aqui-agora.  O prefixo trans- inscrevia (e subscreve ainda hoje) o caráter dinâmico, transformativo, relacional e transgressivo dessa modalidade contemporânea de experienciar e pensar o local. Locus, na raiz etimológica de local, sublinhava, por seu turno, que essa flutuação ou deriva, tal como a (con)fusão de fronteiras delas decorrentes não se esgotavam em si mesmas.

Neste quadro, regressar ao local, para o repensar criticamente, agora numa articulação de diversas escalas e tempos que nele se cruzam, surgia então como tentativa de resposta àqueles abalos, exigindo, no entanto, uma outra conceptualização, que ultrapassasse o confinamento das fronteiras do local a um enraizamento estático, físico e geográfico (Appadurai, 2003: 178).

Como notam Katherine  Brickel e Ayone Datta (2011: 3-4), na senda de autores como Appadurai, translocal e translocalidade designam fenómenos e experiências “place-based rather than exclusively mobile, uprooted or ‘travelling’”. Enquanto lugares expandidos, resultantes do encontro e negociação entre vários locais-tempos, a existência desses fenómenos e experiências produz-se localmente (Appadurai, 2003:178).

Assim, o número inaugural da revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas, abre o convite à publicação em várias das suas secções:

  1. Ensaios
  2. Artigos
  3. Sugestões de leitura

As propostas para publicação serão avaliadas pela Comissão de Leitura da revista e deverão contribuir quer para a reflexão sobre os conceitos de (trans)localidade e culturas urbanas, quer para a análise crítica dos fenómenos geopolíticos, sociais, económicos, biológicos, culturais, artísticos, psicológicos e afetivos que esses conceitos podem referir, quer ainda para a discussão dos problemas que esses fenómenos e experiências implicam. Os casos de estudo tomados como objeto de análise e discussão poderão reportar-se tanto à cidade e às culturas urbanas do Funchal (aqui também entendido como Funchal-expandido), quanto a outras cidades e a outros locais marcados pela translocalidade.

Ensaios e Artigos

Acolher-se-ão com interesse, propostas de ensaios e de artigos (entre 2500 e 5000 palavras), redigidos em português ou inglês, que, ocupando-se do tema “(Trans)Localidade e Culturas Urbanas”, abordem (não exclusivamente) tópicos como:

  1. o local, o urbano e a cidade como lugares-tempos expandidos, como palimpsestos e/ou arquipélagos transfronteiriço: questões de identidade e património;
  2. mobilidade humana e cultural: movimentações centrífugas e/ou centrípetas, entre a vertigem do trânsito e a pulverização de enraizamentos locais;
  3. desloca(liza)ções, conflito e poder;
  4. a plasticidade dos territórios locais e urbanos:
    • processos de coprodução espacial (dinâmicas top-down e bottom up);
    • sustentabilidade ecológica, (des)ordenamento territorial, riscos, resiliência;
  5. paisagens locais e urbanas como fenómenos metamórficos e como territórios híbridos: conservação, subversão, (re)criação;
  6. a complexidade babélica do (trans)local e do urbano contemporâneos:
    • a questão do encontro e da variação linguísticos;
    • a questão da (in)traduzibilidade linguística, social, cultural e artística;
  7. a (re)imaginação do local e/ou da cidade: narrativas e representações literárias e fílmicas;
  8. discursos artísticos contemporâneos, site-specificity, transgressão e deslocalizações (re)criativas;
  9. turismo e a reinvenção do local e/ou do urbano: do virtual à experiência empírica; processos de turistificação

As propostas de ensaios e de artigos deverão ser enviadas até 15 de julho de 2017, para a coordenação da revista  (translocal.revista@mail.uma.pt), incluindo também os seguintes elementos:

  • um resumo da proposta de texto submetida, em português e em inglês (até 200 palavras);
  • nome do(s) autor(es) e uma breve nota curricular (até 100 palavras).

Até 31 de Julho de 2017 a coordenação da revista informará os autores das propostas que forem aceites.

 

 Sugestões de Leitura | Recensões Críticas

O n.º 1 de TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas publicará uma bibliografia de referência (ver infra) sobre o seu tema de capa. Neste sentido, acolher-se-ão com interesse recensões críticas de livros (até 1000 palavras) que, provenientes de várias áreas académicas, culturais e artísticas, abordem questões relacionadas quer com os conceitos, fenómenos e experiências da translocalidade e das culturas urbanas, quer com as problemáticas que desses fenómenos e experiências decorrem.

 

Normas de Edição

As normas de edição da revista encontram-se disponíveis no website do UMa-CIERL aqui. 

Bibliografia de referência [em atualização]:

. AGAMBEN, Giorgio (1993) [1990], A Comunidade que Vem, Lisboa: Presença.

. APPADURAI, Arjun (2003) [1996], Modernity at Large. Cultural Dimension of Globalization. London/New York: Routledge.

. APTER, Emily (2006), The Translation Zone. A New Comparative Literature, Princeton: Princeton University Press.

. APTER, Emily (2013), Against World Literature. On the Politics of Untranslatability,  London/New York: Verso Books.

. BENJAMIN, Walter (2003), “On the Concept of History”, Howard Eiland e Michael W. Jennings (ed.), Walter Benjamin. Selected Writings (1938-1940), vol.4, Harvard: Harvard University Press, pp.389-400.

. BAUMAN, Zygmunt (2012) [2000], Liquid Modernity, Cambridge/Malden: Polity Press.

. BECK, Ulrich (1994), “The Reinvention of Politics: Towards a Theory of Reflexive Modernization”, Ulrich BECK, Anthony GIDDENS, Scott LASH, Reflexive Modernization. Politics, Tradition and Aesthetics in Modern Social Order, Cambridge/Oxford: Polity Press.

. BECK, Ulrich(2007), The Cosmopolitan Vision, Cambridge/Malden: Polity Press.

. CRANG, Mike (2000), “Urban Morphology and the Shaping of the Transmissable City”, City:Analysis of Urban Trends, Culture, Theory, Policy, Action, vol. 4, n.º 3, s.l.: Taylor & Francis, pp.303-315. 

. DATTA, Ayona, Katherine BRICKELL (2016) [2011], Translocal Geographies: Spaces, Places, Connections, London/New York: Routledge.

. DOMINGUES, Álvaro (2010), “A Rua da Estrada”, Cidades – Comunidades e Territórios, n.º 20/21 (dez), Lisboa: ISCTE, pp.59-67.

. GREENBLATT, Stephen (2010), “Cultural Mobility: an introduction”, Stephen Greenblatt et alii, Cultural Mobility. A Manifesto, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 1-23.

. MIGNOLO, Walter D. (2000), Local Histories/Global Designs. Coloniality, Subaltern Knowledge, and Border Thinking, Princeton: Princeton University Press.

. NANCY, Jean-Luc (2001), La Comunidad desobrada, Madrid: Arcana.

. SAID, Edward (2005) [2000], “Reconsiderando a Teoria Itinerante”, Manuela Ribeiro SANCHES, org., Deslocalizar a ‘Europa’, Lisboa: Edições Cotovia, pp. 25-42.  

. SOUSA SANTOS, Boaventura (1999) [1994], Pela Mão de Alice. O Social e o Político na Pós-Modernidade, Porto: Ed. Afrontamento.